A MORTE É O ÚNICO SISTEMA DEMOCRÁTICO DA VIDA!

 

Quando eu era criança, diziam-me os meus pais, que eu tinha de fazer tudo para ser gente. Ser gente? Mas o que seris “SER GENTE”? Era, de fato, uma equação muito difícil de ser resolvida por mim, ainda sem muita experiência de vida. O tempo foi passando e, ao ver hoje o que se passa à nossa volta, ao ver a deterioração mental, a total ausência de escrúpulos, o desprezo da honra e da dignidade, a proliferação de criminosos, corruptos e vigaristas de toda a espécie, mais evidentes nos estratos superiores da sociedade e nos setores da Administração e do empresariado, de onde deveria vir o exemplo e não o assalto miserável a quem trabalha, eu entendo o que os meus pais quereriam dizer, com o “SER GENTE”. Ser gente seria, porventura, ir mais além do que trabalhar com seriedade e honestidade. Ser gente, pressuporia a construção de alguma coisa dentro de nós e fora de nós que se assenta, a meu ver, em quatro pilares fundamentais:

O PENSAMENTO:

O pensamento, é o suporte mais poderoso e a armadura mais forte do homem, a mágica força da sua criatividade e da sua razão de ser. Sem pensamento, o homem não pode ser gente, o homem não passa de um céu brumoso, sem ponta de sol. Por isso, o pensamento tem tantos inimigos! São inimigas todas as inúmeras formas de anestesia mental, falsamente lúdicas, falsamente festivaleiras, falsamente religiosas, falsamente futebolísticas, levando a sociedade à ignorância, através de uma espécie de coma vil, que a impede de raciocinar. É inimigo o vazadouro de lixo mental da televisão, com que a sociedade vai enchendo a despeito da sua meta-cultura. Inimiga a perversão mediática da política, que deveria ser a nobre arte de uma verdadeira democracia participativa, inimiga a política pornografada, em degradantes guerras de interesses, que escamoteiam os verdadeiros problemas nacionais, inimiga  a política, atafulhada no maior lamaçal de corrupção de sempre.

2-O segundo pilar do alto edifício que é ser gente, decorre do primeiro e chama-se CULTURA e, quando falo de cultura, não me refiro da cultura do enciclopedismo balofo, somatório de vagos conhecimentos, empilhamento de ideias improdutivas, a cultura cassete dos tempos de hoje, a cultura do espetáculo, mas sim, quero falar, da cultura do dia-a-dia, a cultura autêntica da dignidade da vida, a cultura irrepreensível do percurso.

O RESPEITO pelos outros, constitui o terceiro pilar. Simplesmente, não há respeito pelos outros, se não houver respeito por nós próprios. Quem não se respeita a si mesmo, não pode respeitar os outros. E quem tem respeito por si próprio, não pode ser falso, corrupto, ladrão, indigno, especulador, manipulador de pessoas e ideias, criminoso, traficante e sujo. O respeito dos outros é o espelho de nós próprios.

O quarto pilar desta edificação é a SOLIDARIEDADE, a solidariedade no seu sentido global, já que a solidariedade pontual, ainda que louvável, não conduz a nada em termos sociais. É o caso da caridade, que não sendo de forma alguma negativa, pode ter, ao contrário do que acontece com a justiça, efeitos nefastos, quando pregada como fim em si mesma. O primeiro passo da solidariedade, está no entender da indispensabilidade da justiça social e no seu consciente reconhecimento, como prioridade das prioridades, em todos os níveis. O segundo passo reside, por parte do cidadão, no cumprimento correto da lei, no cumprimento escrupuloso e competente, dos seus deveres de cidadania, no mais correto exercício da sua profissão e da missão de que cada um está incumbido. Viver dos outros, implica viver para os outros.

É triste reconhecermos, que uma  parte dos homens de hoje, dos homens que mandam, dos homens que podem, dos homens que estão à frente de governos e de instituições de alta responsabilidade não são gente, nunca foram gente, nem para lá caminham… São verdadeiros exemplares da mediocridade e da ausência de formação e de escrúpulos, a ocupar grandes e rendosos postos, arremedos de gente, excrescências malignas da sociedade, contra-facções da honra e da dignidade, são a parte podre da humanidade. A epidemia de corruptos é disso exemplo e, o que conhecemos é apenas, ponta do iceberg.

A esses, os que se apresentam como cabotinos deste palco da vida, para os que não reconhecem a sua inutilidade e dilatam dia a dia, a sua perversidade e pensam que a roubar é que são grandes e que a viver à grande e à francesa à custa da miséria e do trabalho dos outros, é que estão acima do mundo e do homem comum, eu lembro que no seu estômago já não cabe mais nada e nos seus cofres o dinheiro já não passa de entulho. Ainda bem que existe a morte, o único mecanismo democrático da vida.

 

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